퀴어 저자, "좌파 응징주의, 개인 공격 추구...실질적 변화 없어"
Para autora queer, esquerda punitivista ataca indivíduos, busca cliques e não transforma
Folha de Sao Paulo
Gabriel Trigueiro
PT
2026-04-09 13:00
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[요약] 퀴어 페미니스트 활동가 엘사 덱 마르소는 최신 저작에서 응징주의 관행이 국가 영역(예: 대량 투옥, 소외 계층에 대한 폭력)뿐만 아니라 진보 운동 내에서도 확산되고 있다고 지적했다. 진보 운동은 구조적 문제 논의보다 개인 공격을 우선하는 가상 공간 성과주의에 점점 더 지배당하고 있다는 주장이다.
자세히 읽기 (04/09/2026 - 10시00분)
Doutor em história comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
[RESUMO] Elsa Deck Marsault, militante queer e feminista, descreve em seu mais recente livro como a prática punitivista se alastrou não apenas dentro do Estado (por exemplo, nos encarceramentos em massa e na violência contra excluídos) como também nos movimentos progressistas, cada vez mais guiados pelo imperativo de performance virtual que prioriza o ataque a indivíduos ao debate de problemas estruturais.
Foi Paulo Francis quem disse que a crítica mais contundente à esquerda vem sempre de esquerdistas. Ou seja, os ataques feitos por liberais e conservadores jamais se assemelham, fosse no rigor intelectual ou na astúcia, aos feitos pelos próprios dissidentes e apóstatas de esquerda.
A analogia histórica a qual ele recorria era a Reforma Protestante. Os maiores ataques à Igreja Católica não vieram do ateísmo jacobino, mas de Lutero e dos protestantes, quando estes voltaram o conteúdo das próprias Escrituras contra a autoridade papal e reivindicaram o domínio intelectual e filosófico da doutrina.
No início da década de 1980, Norman Podhoretz, um dos principais expoentes da direita nos EUA, argumentou que, se ainda fosse vivo, George Orwell teria se tornado um neoconservador. O autor de "1984" sempre foi crítico do stalinismo e dos totalitarismos do século 20, mas morreu se autodeclarando um socialista democrático. Não há, portanto, qualquer base histórica que corrobore a posição de Podhoretz.
"Fazer Justiça", livro de Elsa Deck Marsault, parte desta consciência: "Neste momento em que as forças reacionárias parecem cada vez mais poderosas e não têm escrúpulos em usar nossas divergências contra nós mesmos/as, fazer uma crítica pública das nossas contradições internas pode parecer uma traição". No entanto, ao optar por fazê-lo, Marsault sinaliza uma postura de coragem intelectual, avessa à agenda de terceiros.
Elsa Deck Marsault é militante queer e feminista. "Fazer Justiça" é um ensaio em que reflete sobre alguns de seus temas mais caros: o abolicionismo penal e a "justiça transformadora", um campo que advoga alternativas ao uso da violência estatal, ao mesmo tempo em que é crítico às práticas punitivistas tão comuns aos movimentos sociais contemporâneos.
Ela demonstra como esses coletivos frequentemente são sequestrados por uma lógica punitivista baseada em "ameaça, pressão, exclusão, assédio, acusação pública, manipulação dos fatos e dos discursos ou descrédito político".
Marsault recorda uma conferência em que Michel Foucault argumentou que se a agenda anticarcerária ganhava fôlego, não era porque o sistema prisional havia falido ou estivesse em declínio. Ao contrário, isso ocorria porque a sua lógica havia se espraiado para além dos muros das prisões e havia penetrado em todas as esferas da sociedade civil.
Marsault aponta o que chama de um efeito de equilíbrio entre "a nossa impotência geral e a nossa potência comunitária". Da mesma forma que há uma fadiga geral diante da corrosão do tecido social promovida pelas big techs e pelo capitalismo financeiro, há uma resposta da esquerda inversamente proporcional, em rigidez e violência, dirigida aos espaços e comunidades dos quais ela tem o controle efetivo.
Em "Fazer Justiça" acompanhamos a análise de um sem-número de casos nos quais, no interior de coletivos, a militância vai para cima do agressor, seja ele real ou imaginário, com sangue nos olhos. Se essa é a vontade da vítima, ou se ela preferiria tratar do assunto em outros termos, é mero detalhe, raramente passível de consideração.
A combinação de rigidez e violência observada nesses coletivos é amplificada pelo imperativo de performance nas redes sociais, aliada a uma militância on-line inadvertidamente pautada por uma lógica ultra individualista e avessa ao caráter estrutural, sociológico e político das instituições.
É muito mais fácil derrubar um indivíduo, com tudo de catártico e expiatório que isso proporciona, do que transformar um sistema.
O moralismo progressista, afirma Marsault, transforma indivíduos em caricaturas achatadas daquilo que deveria ser combatido: o racismo, a homofobia e o classismo. Nessa toada, dar um tiro em um CEO de um plano de saúde vira algo entre uma performance e uma ação revolucionária. Ainda que, na prática, não seja algo que altere, sob qualquer aspecto, o status quo político ou material.
As relações de poder têm sido personalizadas e não tratadas como fruto de dinâmicas sociais complexas. A militância abraçou uma cultura policialesca da linguagem dos indivíduos, bem como de seus desvios morais privados, desvios de impacto coletivo reduzido ou inexistente, é preciso dizer. Ao passo que alguns perfis em redes sociais se tornaram celebridades de nicho, por exercerem papel de polícia e uma performance pública de virtude. Às vezes é difícil separar o ativista do influencer.
Como demonstra Marsault: "o indivíduo se torna o alfa e o ômega da luta: a pessoa que dita e a pessoa que se educa, se conscientiza, se desconstrói e se responsabiliza —o início e o fim de tudo".
A política é esvaziada, e em seguida é convertida a um mero "exercício de desenvolvimento pessoal". Ela se transforma em algo anódino como um slogan corporativo de bem-estar. Vira, em outras palavras, uma rotina de skincare.
Leia tudo sobre o tema e siga:
[RESUMO] Elsa Deck Marsault, militante queer e feminista, descreve em seu mais recente livro como a prática punitivista se alastrou não apenas dentro do Estado (por exemplo, nos encarceramentos em massa e na violência contra excluídos) como também nos movimentos progressistas, cada vez mais guiados pelo imperativo de performance virtual que prioriza o ataque a indivíduos ao debate de problemas estruturais.
Foi Paulo Francis quem disse que a crítica mais contundente à esquerda vem sempre de esquerdistas. Ou seja, os ataques feitos por liberais e conservadores jamais se assemelham, fosse no rigor intelectual ou na astúcia, aos feitos pelos próprios dissidentes e apóstatas de esquerda.
A analogia histórica a qual ele recorria era a Reforma Protestante. Os maiores ataques à Igreja Católica não vieram do ateísmo jacobino, mas de Lutero e dos protestantes, quando estes voltaram o conteúdo das próprias Escrituras contra a autoridade papal e reivindicaram o domínio intelectual e filosófico da doutrina.
No início da década de 1980, Norman Podhoretz, um dos principais expoentes da direita nos EUA, argumentou que, se ainda fosse vivo, George Orwell teria se tornado um neoconservador. O autor de "1984" sempre foi crítico do stalinismo e dos totalitarismos do século 20, mas morreu se autodeclarando um socialista democrático. Não há, portanto, qualquer base histórica que corrobore a posição de Podhoretz.
"Fazer Justiça", livro de Elsa Deck Marsault, parte desta consciência: "Neste momento em que as forças reacionárias parecem cada vez mais poderosas e não têm escrúpulos em usar nossas divergências contra nós mesmos/as, fazer uma crítica pública das nossas contradições internas pode parecer uma traição". No entanto, ao optar por fazê-lo, Marsault sinaliza uma postura de coragem intelectual, avessa à agenda de terceiros.
Elsa Deck Marsault é militante queer e feminista. "Fazer Justiça" é um ensaio em que reflete sobre alguns de seus temas mais caros: o abolicionismo penal e a "justiça transformadora", um campo que advoga alternativas ao uso da violência estatal, ao mesmo tempo em que é crítico às práticas punitivistas tão comuns aos movimentos sociais contemporâneos.
Ela demonstra como esses coletivos frequentemente são sequestrados por uma lógica punitivista baseada em "ameaça, pressão, exclusão, assédio, acusação pública, manipulação dos fatos e dos discursos ou descrédito político".
Marsault recorda uma conferência em que Michel Foucault argumentou que se a agenda anticarcerária ganhava fôlego, não era porque o sistema prisional havia falido ou estivesse em declínio. Ao contrário, isso ocorria porque a sua lógica havia se espraiado para além dos muros das prisões e havia penetrado em todas as esferas da sociedade civil.
Marsault aponta o que chama de um efeito de equilíbrio entre "a nossa impotência geral e a nossa potência comunitária". Da mesma forma que há uma fadiga geral diante da corrosão do tecido social promovida pelas big techs e pelo capitalismo financeiro, há uma resposta da esquerda inversamente proporcional, em rigidez e violência, dirigida aos espaços e comunidades dos quais ela tem o controle efetivo.
Em "Fazer Justiça" acompanhamos a análise de um sem-número de casos nos quais, no interior de coletivos, a militância vai para cima do agressor, seja ele real ou imaginário, com sangue nos olhos. Se essa é a vontade da vítima, ou se ela preferiria tratar do assunto em outros termos, é mero detalhe, raramente passível de consideração.
A combinação de rigidez e violência observada nesses coletivos é amplificada pelo imperativo de performance nas redes sociais, aliada a uma militância on-line inadvertidamente pautada por uma lógica ultra individualista e avessa ao caráter estrutural, sociológico e político das instituições.
É muito mais fácil derrubar um indivíduo, com tudo de catártico e expiatório que isso proporciona, do que transformar um sistema.
O moralismo progressista, afirma Marsault, transforma indivíduos em caricaturas achatadas daquilo que deveria ser combatido: o racismo, a homofobia e o classismo. Nessa toada, dar um tiro em um CEO de um plano de saúde vira algo entre uma performance e uma ação revolucionária. Ainda que, na prática, não seja algo que altere, sob qualquer aspecto, o status quo político ou material.
As relações de poder têm sido personalizadas e não tratadas como fruto de dinâmicas sociais complexas. A militância abraçou uma cultura policialesca da linguagem dos indivíduos, bem como de seus desvios morais privados, desvios de impacto coletivo reduzido ou inexistente, é preciso dizer. Ao passo que alguns perfis em redes sociais se tornaram celebridades de nicho, por exercerem papel de polícia e uma performance pública de virtude. Às vezes é difícil separar o ativista do influencer.
Como demonstra Marsault: "o indivíduo se torna o alfa e o ômega da luta: a pessoa que dita e a pessoa que se educa, se conscientiza, se desconstrói e se responsabiliza —o início e o fim de tudo".
A política é esvaziada, e em seguida é convertida a um mero "exercício de desenvolvimento pessoal". Ela se transforma em algo anódino como um slogan corporativo de bem-estar. Vira, em outras palavras, uma rotina de skincare.
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